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quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Novas Regras do Jogo

Este ano decidi fazer um voto de silêncio na minha vida.. Não quer dizer que deixe de falar, nada disso, mas tal como o fim do ano é um momento de fazer limpezas, de energias, de situações ou pessoas na nossa vida, também vale a pena repensar naquilo que andamos a dizer, sobre nós, sobre os outros, a manifestar ou desejar, os sentimentos que demonstramos e as reclamações constantes do dia a dia. Se há coisa que tenho sentido cansaço é disso mesmo, estar constantemente insatisfeita e a reclamar, principalmente no trabalho. E uma das principais mudanças vai mesmo ser nesta área já que sou sempre a mais mal interpretada pelas minhas manifestações de descontentamento. Sou conhecida como a "mau feitio", porque tenho sempre uma resposta pronta a disparar, um parecer sempre a dar e uma voz para ser ouvida quando algo está do meu desagrado.

Já fui a pessoa mais simpática à face da terra. Sempre tive um sorriso para dar, uma gargalhada que enchia uma casa ou qualquer espaço onde me encontrasse. Embora me considere uma pessoa introvertida e antissocial, sei ser bastante divertida e brincalhona, mas com o passar dos anos essa capacidade foi-se perdendo. Não por mim ou por falta de vontade em ser e demonstrar ser bondosa e carinhosa, mas sim pela falta de sensibilidade das pessoas com quem me fui cruzando ao longo da vida. E principalmente os trabalhos que tive. Quando trabalhei num café, comecei a perceber que as pessoas confundiam simpatia com confiança e logo aí comecei a ser mais ríspida e seletivamente simpática. Não era uma questão de gostar mais ou menos de alguém, mas sim de saber a quem podia dar mais e quem não podia dar nada desse meu lado simpático e atencioso. Outro trabalho marcante foi no escritório de uma das principais empresas fabricantes de parque infantis a nível nacional. O ambiente era nojento, desde os patrões aos empregados, os colegas de trabalho a cada dia se moldavam mais e mais ao feitio e personalidades dos patrões para poderem agradar e mostrar serviço, e poder confiar em alguém nestas condições tornou-se um jogo de desconfiança. Mais uma vez os sorrisos foram perdendo forma, dando até lugar a muitas lágrimas de exaustão emocional, numa das piores fases da minha vida a nível pessoal.

Olhando para trás nem sei como consegui sair do poço em que estava envolvida, nem sei como voltei a ter a capacidade de voltar a sorrir depois de tanto sofrimento. E sofrer calada dói o dobro de tudo o resto. Mas a verdade é que voltei a sorrir, encarei tudo como novidade ao entrar uma das maiores empresas a nível mundial do mundo da bricolagem e conhecer pessoas mais boas e mais atenciosas foi uma ajuda para, aos poucos, ir recompondo partes de mim que se tinham desfeito. Mas foi uma felicidade que durou pouco tempo, porque o atendimento ao publico exige habilidades para as quais eu simplesmente já não me sinto capaz, por falta de paciência com a estupidez humana. Mais uma vez notei que a simpatia e confiança são dois conceitos que não coabitam em consenso na cabeça dos habitantes desta cidade, desta terra ou desta parte do país. E pouco a pouco isso transforma uma pessoa, a impaciência torna-se num habito para um refugio de segurança e uma garantia de que ninguém vai ultrapassar limites. Atenção que adoro atender, adoro ser atenciosa e prestável, adoro dar explicações, dar soluções e opções, adoro gente curiosa para aprender a fazer e adoro que me possam ensinar também… mas infelizmente este é o cliente especial que não temos acesso todos os dias. É como ganhar uma lotaria, existe um num milhões que realmente é bem educado, bem formado, interessado e atencioso e que reconhece que as tuas oito horas de trabalho não têm de ser um martírio para chegar ao fim do mês e ter um pagamento.

Mas é com pessoas contrárias que se perde a vontade de sorrir, de ser simpática e atenciosa e, acima de tudo, a vontade de falar e expor situações de desconforto. Pior mesmo é existirem conversas de corredor, que fazem questão de te fazer chegar, porque sabem que vais passar a mensagem, porque se há algo que me incomoda, são injustiças e situações desagradáveis... e por isso este ano fiz um voto de silêncio. Não quero saber da vida de ninguém, não quero saber de quem está bem ou mal no trabalho, não quero reagir por impulso, embora pretenda manter o meu mau feitio em ter resposta para tudo, se a situação assim o exigir, porque isto já não é defeito, é feitio. E como assim pretendo estar perante o trabalho, também pretendo aplicar esta lei à minha vida pessoal. 2022 foi mui exigente a nível de comunicação, principalmente nas relações. Nunca tive tanto medo de acreditar em alguém como agora, por ter vivido situações em que pessoas me diziam que me amavam num dia e no dia a seguir já tinham duvidas. Nunca pensei que pudessem brincar tão facilmente com os sentimentos de alguém, sim, porque ser transparente e dizer o que se sente ainda é visto como um sinal de fraqueza e não de sinceridade ou de afeto. Nunca me senti tão banal na vida.

Por isso sim, mais vale estar calada, não reagir ou agir. É deixar os dias passarem e criar uma bolha só minha, um mundo só meu onde ninguém me poderá afetar com palavras e ações. Está difícil de acreditar em alguém, sejam amigos, colegas, família ou paixões. Tudo são momentos e há sempre forma de nos recompormos mas a verdade é que eu não tenho de ser uma lutadora eterna para arranjar sempre soluções para aquilo que me magoa, assim como não tenho que andar sempre feliz e contente para mostrar a toda a gente que estou bem. Ninguém tem é o direito de me usar, brincar com sentimentos, alimentar sonhos e esperanças, implorar por um amor que depois não quer dar em troca, que depois não quer retribuir ou simplesmente quando não quer saber. O foco agora sou eu, quem define as regras da minha vida sou eu, quem permite agora sou eu. E embora tenha perdido o sorriso e o dom palavra, talvez ganhe outras coisas, como o respeito, a consideração, a empatia... e pode ser que tudo comece a mudar e a melhorar à minha volta, porque para viver a reclamar não vale a pena. E a ti, mais uma vez, obrigada por estares ai.

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