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quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Textos Antigos

Finalmente imprimi alguns textos antigos que tinha perdidos em ficheiros guardados numa pen e comecei a ponderar um novo livro com estes textos. Voltar a ler algo escrito há tanto tempo, possivelmente com vinte anos de idade, foi uma viagem no tempo agridoce. Primeiro, pelo ingenuidade do olhar e da paixão pela vida. Era tudo tão intenso, tão verdadeiro e tão arrebatador, que o impossível parecia ser possível naquela altura. Segundo, pela intensidade da escrita, pelos detalhes, pelos lugares comuns, sempre a mesma inspiração, uma terra que me fazia sonhar acordada com amores (im)prováveis e com um estilo de vida simples e calmo. Terceiro, voltar a ser aquela jovem que acreditava piamente no amor, nos sentimentos, nos riscos, na liberdade, num futuro feliz sem grandes reviravoltas... sinceramente já nem sei quem ela é. Voltar a recordar o lugar e as pessoas que me tinham inspirado a escrever tamanha forma de amar, foi um momento feliz mas ao mesmo tempo foi um murro no estômago, ver o que se perdeu, o quanto tudo mudou, desde eu mesma àquela terra por quem deixei a minha vida toda para trás para não se tornar no sonho que eu tanto desejei.

Acabei por dar por mim a pensar que precisava de uma vida nova: fazer as malas, deixar esta vida toda para trás, recomeçar do zero num outro país, onde não conhecesse ninguém e principalmente onde ninguém soubesse nada de mim. Ser uma verdadeira desconhecida no mundo, ser um fantasma nas sombras da vida, ser eu própria na minha pele, com oportunidade de me reconstruir da forma que bem entendesse. Sim, uma visão muito cinematográfica. De preferencia um país nórdico, tipo Escócia, cheio de neve e com poucos dias de sol, com castelos e ruinas para visitar mas onde me pudesse recolher o máximo possível dentro de quatro paredes e ao mesmo tempo poder dar longos passeios pelo campo, passar horas a fio a ler um livro no meio da erva, acender a lareira e deixar a neve cair na rua, dançar enquanto ela caia, ou até mesmo num dia de chuva. Ter oportunidade de me sentir mais livre do que nunca.

O que é irónico visto eu ter decido vir para esta terra precisamente porque aqui me sentia livre, sentia que podia viver coisas diferentes todos os dias, um encanto que apenas durava durante o mês de Agosto e que tive de aprender à força quando me mudei de malas e bagagens para cá. Vim atrás de uma utopia que agora sei que assim é, mas antes estava longe de pensar que assim seria. Acreditava piamente que iria encontrar a felicidade, alguém para partilhar os meus dias, ter um pequeno negocio local que me permitisse pagar as contas ao fim do mês sem ter de depender de ninguém e ainda ter a liberdade de fazer os meus horários de forma a ter tempo para os meus hobbies, as minhas artes, as minhas paixões... Nada disto aconteceu, absolutamente nada do que eu fiz e tentei fazer rumaram para isso. Todos me diziam que só tinha vindo perder qualidades para este fim do mundo, que tinha fugido de um desgosto de amor, que apenas estava a ser teimosa. O que ninguém entendeu e ainda hoje não entendem é a minha necessidade de vir atrás de um sonho, de uma vida plena e em paz, de uma felicidade completa através de um sentimento de realização.

Posso não ter sido bem sucedida mas sei que, aos poucos, conquistei outras coisas, mas o preço a pagar foi caro. Desilusões atrás de desilusões, não apenas amorosas mas com a própria família, alguns amigos que se foram revelando pelo caminho, e principalmente a nível laboral. Sinto que fui obrigada a crescer rápido para aprender a não confiar em ninguém, a não revelar quem realmente era ou sou, a não ser simpática para não permitir que quisessem saber tanto ou mais da minha vida do que eu. Tive a infelicidade de me cruzar com muita gente invejosa e cruel, que fez de tudo para eu voltar para o sitio de onde tinha vindo, mas (ainda) não conseguiram, e no que depender de mim não irão conseguir. Às vezes é preciso que nos tentem destruir para podermos tornar mais fortes, mas a vida tem formas inadequadas de nos obrigar a perceber que realmente somos mais fortes do que aquilo que pensamos.

Tudo isto porque já não me reconheci nas palavras que escrevi, já não consigo rever naquela forma de admirar alguém ou de me poder voltar a apaixonar assim. Pelo menos ainda deu para dar algumas gargalhadas por perceber que aqueles amores de verão acabaram até por ser correspondidos anos mais tarde, quando eu já nem conseguia olhar pra eles da mesma forma. Nem mesmo aquela aldeia me parece a mesma. O brilho desapareceu, o encanto daqueles momentos passados por lá já não existe, tudo virou sombra e saudosismo, o que me deixa sempre triste por saber que é um lugar com potencial para crescer e ter coisas boas, mas que ninguém se preocupa com isso. Tudo por interesses políticos ou simplesmente falta de interesse pela comunidade, visto que cada um só tem olhos para o seu próprio umbigo. Mas voltando aos textos, talvez até faça sentido compilar e lançar para o mundo a Tessa apaixonada que já fui, a menina de coração rebelde, de sonhos infinitos, de noites quentes de verão onde fui realmente feliz, num local que me ensinou tanto, de bom ou de mau, não importa, o que importa é que faz parte de mim, sempre fará. Talvez eu já não seja essa Tessa, sei que não sou, mas já fui e não deve ser esquecida... E a ti, obrigada por estares aí.

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